Respondendo às objeções sobre a interferência angelical na raça humana

Por Hermes C. Fernandes

Esse evento bizarro encontra eco nas lendas e mitos da cada cultura antiga do planeta. Gregos, egípcios, hindus, índios, e praticamente todos os demais povos contam acerca do envolvimento de seres humanos com seres celestiais. Flavio Josefo, o grande historiador judeu do século I, faz paralelos entre o fato bíblico e a mitologia greco-romana. O texto de Gênesis diz que os seres híbridos engendrados pelos anjos “foram valentes, os homens de renome que houve na Antiguidade” (Gn.6:4b). A mitologia não deve ser entendida como mera invenção do gênio humano. Ela surge no solo fecundo das tradições, das lendas, que nada mais são do que fatos corrompidos de verdades primitivas. É muito comum encontrarmos lendas como a de Hércules, fruto do casamento entre Zeus e uma mulher. Assim como é comum encontrarmos lendas sobre o dilúvio. Esses são pontos convergentes em todas as tradições religiosas do mundo.

Em praticamente todas as culturas antigas pode-se encontrar histórias semelhantes sobre a presença de “deuses”. Entre os egípcios, encontramos Ísis e Osíris. Entre os povos da Índia e do Tibete, encontramos lendas sobre a cidade de Shambala e os “Budas” ou “deuses” que teriam trazido ciência e sabedoria para os seus povos. A intromissão dos Nefilins entre as diversas culturas da terra explicaria, por exemplo, como a civilização Asteca, Inca e Maia adquiriu tanto conhecimento nas diversas áreas científicas, sendo capazes de produzir sofisticados calendários e mapas estelares.

Alguns templos astecas foram dedicados a dois seres que localmente eram chamados de “deuses” e que teriam vivido num período estimado entre 300 a 900 d.C. De acordo com a lenda contada, estes dois “deuses” – um homem e uma mulher teriam vindo para Terra com outros deuses e começaram a ensinar os nativos como eles poderiam construir uma grande civilização. Estes “deuses” ficaram entre os nativos por um grande período de tempo, ensinando-os matemática, ciência, astronomia além de outros conhecimentos. Então, antes que os dois “deuses” retornassem à sua “casa”, um outro grupo de diferentes “deuses” teriam aparecido em cena. Segundo a lenda, houve um grande conflito entre eles e os dois “deuses” presentes foram mortos. Enlutados com sua morte, os nativos sepultaram seus “deuses” mortos na principal pirâmide que eles haviam ajudado a construir. Esqueletos bizarros, com crânios bem maiores do que o normal, foram encontrados nessa pirâmide.

Lendas sobre Viracocha, divindade adorada pelos Incas, dizem que os primeiros seres que ele criou, chamados huari ruma, seriam gigantes, que vivam na época conhecida como Naupa Pacha (“o tempo dos ancestrais”). Os indígenas locais afirmam que os naupas viveram muito antes dos incas, ensinando coisas aos homens e, quando foram embora, “subiram ao céu e nunca mais voltaram”. [1]

Outro exemplo interessante é dos Sumérios. Sua astronomia era incrivelmente avançada: seus observatórios obtinham cálculos do ciclo lunar que diferiam em apenas 0,4 segundos dos cálculos atuais. Na colina de Kuyundjick, antiga Nínive, foi encontrado um cálculo, cujo resultado final, em nossa numeração, corresponde a 195.955.200.000.000. Um número de quinze casas! Enquanto os sofisticados gregos, no apogeu do seu saber, não passaram do número 10.000, considerando qualquer número a mais como sendo o “infinito”.

Na cidade de Nipur, 150 km ao sul de Bagdá, foi encontrada uma biblioteca sumeriana inteira, contendo cerca de 60.000 placas de barro com inscrições denominadas: cuneiformes. Lâminas de argila sumérias têm informações precisas sobre os planetas do sistema solar.

O mais impressionante são os dados sobre Plutão (Planeta que só foi descoberto em 1930!). Eles sabiam o tamanho de Plutão, sua composição química e orgânica e afirmavam que Plutão era na verdade uma lua de outro planeta do Sistema Solar que se “desprendeu” e ganhou uma nova órbita (hipótese que tem sido levantada entre pesquisadores da NASA). Eles chamavam a Lua de pote de chumbo e diziam que seu núcleo era uma ‘cabaça’ de ferro. Dados que foram confirmados pela NASA, durante o programa Apolo.

Como tal conhecimento poderia ser possível há 3.000 anos? Os Sumérios alegavam ter recebido tal conhecimento dos “deuses” que vieram do céu. Segundo eles, esses seres tinham uma expectativa de vida de 20.000 anos, período completamente incompreensível para os nossos padrões, e eram homens gigantes. Esses “deuses” misturaram-se com os humanos, gerando assim novas raças e etnias, conhecidos por eles como os “filhos dos Deuses”. Será tudo isso coincidência?

Como a Igreja Primitiva interpretava Gênesis 6?

A igreja primitiva não tinha qualquer dificuldade em identificar os Bene ha-Elohim como anjos caídos. Entre os primeiros pais da igreja, podemos citar Justino, Atenágoras, Cipriano, Eusébio, e entre os judeus, podemos citar Josefo, o grande historiador, e Philo. Antigas fontes rabínicas, bem como os tradutores da Septuaginta, eram unânimes nesse ponto de vista.

Ainda no século II, Justino Mártir atribuía toda maldade aos demônios, que segundo ele, eram os filhos dos anjos que caíram devido à sua cobiça pelas filhas dos homens. Veja o que ele diz em sua Segunda Apologia:

“Eles (Nefilins) subverterem a raça humana por meio de escritos mágicos e do medo que nela instilaram, por meio de punições à humanidade, instruindo os homens no uso de sacrifícios, incenso e libações das quais precisariam depois de se tornarem escravos de suas lascivas paixões. Engendraram assassinatos, guerras, adultérios e todos os tipos de dissipações e todas as espécies de pecado”.[1]

Em sua obra Legatio, escrita em torno de 170 d.C., Atenágoras apresenta os anjos que “violaram a sua natureza e a sua missão”, e ainda comenta o paralelismo entre a verdade das Escrituras, e as versões da Mitologia:

“Os que buscaram mulheres fizeram nascer os chamados gigantes. Não se surpreenda se um registro parcial sobre eles tiver também sido feito pelos poetas. A sabedoria mundana e a sabedoria profética diferem entre si como a verdade da probabilidade – uma é celestial, a outra é terrena (…) Estes anjos, então, que caíram do céu ocuparam-se com o ar e a terra e não mais conseguiram elevar-se até os reinos do céu. As almas dos gigantes são os demônios que vagueiam pelo mundo. Tanto anjos como demônios produzem movimentos [isto é, agitações, vibrações] – demônios produzem movimentos similares às naturezas que receberam, e anjos movimentos similares à luxúria pela qual foram possuídos”.[2]

Tertuliano (160-230 d.C), muito admirado nos círculos teológicos, afirmou:

“Com relação aos detalhes sobre como os anjos, pela sua própria vontade, perverteram-se e constituíram então a fonte da raça corrupta dos demônios, uma raça amaldiçoada por Deus juntamente com seus originadores e aquele que mencionamos como seu líder. O registro destes acontecimentos é encontrado na Sagrada Escritura”.[3]

Tertuliano chega a citar uma prática comum na igreja primitiva, de renunciar na cerimônia de batismo, a influência dos anjos caídos.[4]

Clemente de Alexandria (150-220) fala acerca dos anjos “que renunciaram à beleza de Deus em troca da beleza que se desvanece, caindo assim do céu para a terra”.[5] Na obra conhecida como “As Homilias de Clemente”, lemos que os anjos “modificaram-se, assumindo a natureza de homens” e compartilharam a luxúria humana.[6]

Foi Júlio Africano (200-245 d.C., contemporâneo de Orígenes) que introduziu a teoria de que os “filhos de Deus” seriam os descendentes de Sete, e as filhas dos homens seriam as descendentes de Caim. Ciro de Alexandria também repudiou a posição ortodoxa predominante entre seus contemporâneos. Jerônimo (348-420),Crisóstomo (346-407) também fizeram coro com a nova teoria. Mas foi Agostinho (354-430) quem desferiu o golpe definitivo contra a antiga crença, abraçando a teoria de que os filhos de Deus seriam, de fato, os filhos de Sete. A posição de Agostinho prevaleceu por toda a Idade Média, até os dias de hoje.

Convém salientar os motivos que levaram Agostinho a abolir a crença de que os anjos houvessem caído em luxúria com as mulheres. Durante o tempo de seu ministério, Agostinho teve de enfrentar um grave problema causado pela grande popularidade dos anjos: As pessoas estavam prestando-lhes culto, oferecendo-lhes sacrifícios e orações. A situação já estava fora de controle. Por essa razão, Agostinho procurou reduzir os anjos à forma mais abstrata possível, pregando publicamente:

«Legítimos habitantes das moradas celestes, os espíritos imortais, felizes pela posse do Criador, eternos por sua eternidade, fortes de sua verdade e santos por sua graça, tocados de compulsivo amor por nós, infelizes e mortais, e desejosos de partilhar conosco sua imortalidade e beatitude, não, querem que sacrifiquemos a eles, mas Àquele que sabem ser, como nós, o sacrifício [ou seja, Jesus Cristo]. Porque somos com eles uma só Cidade de Deus.»; «Quanto aos milagres, sejam quais forem, operados pelos anjos ou por qualquer outro modo, se se destinam a glorificar o culto da religião do verdadeiro Deus, princípio único da vida bem aventurada, devem ser atribuídos aos espíritos que nos amam com verdadeira, é preciso acreditar ser o próprio Deus quem neles e por eles opera.»; «… Aquele cuja palavra é espírito, inteligência, eternidade, palavra sem começo e sem fim, palavra ouvida em toda a pureza, não pelos ouvidos do corpo, mas do espírito, por intermédio de seus ministros, enviados que gozam de sua verdade imutável, no seio de eterna beatitude, palavra que lhes comunica de maneira inefável as ordens que devem transmitir à ordem aparente e sensível, ordens que executam sem demora e facilmente.»; «Assim, mostram-nos os anjos fiéis com que sincero amor nos amam; com efeito, não é à sua própria dominação que querem submeter-nos, mas ao poderio daquele que são felizes de contemplar, soberana beatitude a que desejam cheguemos também e de que não se apartam.»[7]

Eis as razões sinceras, porém, equivocadas, que levaram o grande teólogo do século IV a aderir à teoria da descendência setita.

Vamos analisar cuidadosamente as premissas desta teoria.

De acordo com essa posição, os filhos de Deus são identificados como os filhos de Sete, pelo fato de esses constituírem a boa linhagem de onde viria o Messias. Já a descendência de Caim não tinha temor de Deus, e era conhecida por sua impiedade. Se os filhos de Deus eram os filhos de Sete, e as filhas dos homens eram as filhas de Caim, como a união entre essas duas linhagens pôde produzir gigantes? Não conheço qualquer caso de casais onde o marido é crente e a esposa incrédula que tenha produzido filhos gigantes, ou mesmo, uma descendência maligna. Pelo contrário. O apóstolo Paulo diz que “o marido incrédulo é santificado pela mulher, e a mulher incrédula é santificada pelo marido crente. Doutra sorte os vossos filhos seriam impuros, mas agora são santos” (1 Co.7:14).

Quanto à alegação de que a linhagem de Sete era uma “linhagem bondosa” carece de qualquer respaldo bíblico. Se fosse “bondosa” não teria se envolvido com uma “linhagem perversa”, como a de Caim. Nunca houve, nem haverá entre os humanos uma linhagem bondosa. O que houve foi uma “linhagem messiânica”, pela qual veio o Messias. Entretanto, essa “linhagem” é bem “maldosa”, se quisermos ser honesto com o relato bíblico. Não é à toa que encontramos a árvore genealógica de Jesus em Mateus e em Lucas. Em Sua linhagem encontramos de tudo. Desde Judá, um fornicário (Gn.38), passando por Perez, filho ilegítimo, Raabe, prostituta, Bateseba, adúltera (Mt.1:1-6), e algumas outras figuras, no mínimo, controversas.

Embora tenha vindo de uma linhagem de pecadores, Jesus nasceu sem pecado, pois Seu DNA foi produzido pelo Espírito Santo, no ventre de uma virgem chamada Maria. De Maria, Deus aproveitou o cromossomo X, puro, sem a contaminação dos genes angélicos. Do Espírito Santo veio o cromossomo Y, que gerou o corpo no qual Deus habitou entre nós.

O principal argumento contra o envolvimento sexual entre os anjos e as mulheres é tirado de uma passagem neo-testamentária, em que Jesus afirma que no céu todos seremos como os anjos, que não se casam, nem se dão em casamento. Concluiu-se, daí, que os anjos são seres assexuados, e que, portanto, não poderiam ter coabitado com as mulheres, nem tampouco lhe dado filhos.

Mas basta um exame mais acurado do texto (Mt.22:30), e veremos o que realmente Jesus quis dizer. Ele disse: “Na ressurreição nem se casam nem são dados em casamento; serão como os anjos de Deus no céu”. Repare o detalhe “no céu”. De fato, no céu, os anjos são seres espirituais, que não podem se casar, ou manter qualquer tipo de atividade sexual. Entretanto, somos informados por Judas que esses anjos “deixaram a sua própria habitação” (Jd.6). Ao descer à terra, eles assumiram corpos físicos, bem semelhantes aos dos seres humanos.

A bem da verdade, não existe um anjo nas Escrituras que seja assexuado. De Gênesis a Apocalipse, os anjos se apresentam como “varões”[8]. De acordo com os relatos bíblicos, os anjos aparecem, na maioria das vezes, como homens de carne e osso, podendo ser tocados por mãos humanas; comem o mesmo alimento dos homens, e são capazes de combate físico direto, como no caso ocorrido com Jacó. O escritor de Hebreus chega a afirmar que muitos, sem se darem conta, “hospedaram anjos” (Hb.12:2).

Em Gênesis 18, encontramos três anjos enviados por Deus a Abraão. Eles, não apenas foram recebidos com honra pelo patriarca, como também participaram de um verdadeiro banquete. Bezerro assado, pão, coalhada, leite, foram algumas das iguarias que “eles comeram” (Gn.18:8).

Alguém poderá alegar: Entre comer e ter relações sexuais há uma grande distância.

De fato, os anjos são espíritos, mas que possuem também uma estrutura “carnal”. Ainda que seja “outra carne”, conforme lemos em Judas 7. Neste texto, Judas relata o que aconteceu em “Sodoma e Gomorra, e as cidades circunvizinhas que, havendo-se prostituído como aqueles (anjos), e ido após outra carne (a dos anjos), foram postas como exemplo, sofrendo a pena do fogo eterno” (Jd.7).

Que cidades circunvizinhas eram essas? As que Josué, mais tarde, teve que destruir. Somos levados a crer que houve outras incursões de anjos caídos no mundo após o Dilúvio. Segundo Enoque, foram duzentos o números dos anjos que tiveram relações com as mulheres. Esses foram aprisionados, e aguardam o dia do Juízo. Entretanto, Satanás seduziu a terça parte das hostes celestiais. Alguns desses anjos desceram à Terra para dar continuidade à sua prole maldita, e ao seu intento de impedir a conclusão do plano de Deus.

Enoque parece fazer alusão a isso no capítulo 85, versos 2 e 4 do seu Livro:

“E ví uma estrela caiu do céu (…) Novamente eu vi em minha visão, e examinei o céu; então vi muitas estrelas descendo, e projetando-se do céu para onde a primeira estrela estava.”

Na sequência do texto, Enoque diz, por meio de uma parábola, que tais “estrelas”, que vieram em uma segunda incursão, foram as responsáveis pela contaminação de algumas civilizações que habitavam a Terra., chamadas ali de elefantes, camelos e asnos. Tais povos teriam sido engendrados por essas criaturas celestiais.

Uma outra passagem parece lançar luz sobre esse fato é Deuteronômio 32:8. Ali, no cântico de Moisés, lemos:

“Quando o Altíssimo repartia as nações, quando espalhava os filhos de Adão ele fixou fronteiras para os povos, conforme o número dos filhos de Deus”[9]

Outra passagem que corrobora com essa está em Deuteronômio 4:19, onde Moisés adverte o povo de Israel: “E não levantes os teus olhos aos céus e vejas o sol, e a lua, e as estrelas, todo o exército dos céus, e sejas impelido a que te inclines perante eles, e sirvas àqueles que o Senhor, teu Deus, repartiu a todos os povos debaixo de todos os céus”.

Fica claro que o próprio Deus distribui as nações, submetendo-as aos Anjos Guardiões (Também chamados de Sentinelas ou Vigilantes). Afinal, Adão havia entregado o mundo a Satanás. Nada mais natural que as nações fossem repartidas entre seus anjos aliados. E isso foi feito com o consentimento de Deus. Por isso, cada nação servia a seus próprios deuses. Baal, Asterote, Dagon e outros ídolos, nada mais eram que seres angelicais, aos quais as nações foram submetidas. O verso 9, porém, diz: “Mas a parte do Senhor foi o seu povo, o lote da sua herança foi Jacó”.

 Através de Israel, Deus preservaria uma linhagem santa, que não se macularia com a semente dos Nefilins, para trazer ao mundo o Redentor da Humanidade. Era por isso que os filhos de Israel não podiam se misturar com os habitantes daquelas nações. Todas elas estavam contaminadas pela semente maligna.

É provável que aqueles povos já estivessem familiarizados com a visita dos “deuses”. Foi por isso que os moradores de Sodoma quiseram agarrar à força os anjos que Deus havia enviado a Ló, para tirá-lo de lá, juntamente com a sua família.[10] Eles só não podiam supor que aqueles anjos não eram Nefilins, mas anjos enviados por Deus para trazer juízo àquelas cidades.

Até entre os gregos e romanos contemporâneos dos apóstolos, havia a crença de que os deuses desciam entre os homens, na semelhança humana. Em Atos encontramos a curiosa narrativa de um episódio em que as multidões acreditaram que Paulo e Barnabé eram Júpiter e Mercúrio, deuses da mitologia romana que os estavam visitando. As multidões clamavam: “Fizeram-se os deuses semelhantes aos homens, e desceram até nós” (At.14:11b). Chegaram a ponto de trazerem touros para serem sacrificados a eles. Os apóstolos tiveram que reagir energicamente para dissuadi-los: “Porém, ouvindo isto os apóstolos Barnabé e Paulo, rasgaram as suas vestes, e saltaram para o meio da multidão, clamando: Senhores, por que fazeis essas coisas? Nós também somos homens como vós, sujeitos às mesmas paixões, e vos anunciamos que vos convertais dessas vaidades ao Deus vivo, que fez o céu, a terra, o mar e tudo o que neles há, o qual nos tempos passados deixou andar todas as nações em seus próprios caminhos. Contudo, não deixou de dar testemunho de si mesmo” (vv.14-17a). Repare que eles chamam os deuses das nações de “vaidade”.

Devemos atentar mais uma vez para o que diz Gênesis 6. O texto diz que havia Nefilins naqueles dias, e também depois deles. Quando Moisés escreveu este relato, a Terra estava infestada de gigantes, uma raça híbrida, fruto da mistura entre anjos e humanos.

Entre as tribos que habitavam Canaã, a Terra Prometida, estavam os Refains, Emins, Horins, Zanzumins, que eram gigantes. O reino de Ogue, rei de Basã, era uma verdadeira “terra dos gigantes”. Mais adiante encontramos Arba, Anaque e seus sete filhos (Anaquins), que também eram gigantes. Sem nos esquecer de Golias e seus quatro irmãos.

Quando Deus revelou a Abraão que a Terra de Canaã lhe seria dada por herança, Satanás teve cerca de 400 anos para plantar ali a semente nefasta dos Nefilins.

Isso nos remete à parábola do joio e do trigo. Jesus conta que “o reino dos céus é semelhante ao homem que semeia boa semente no seu campo. Mas enquanto os homens dormiam, veio o seu inimigo, semeou o joio no meio do trigo e retirou-se” (Mt.13:24-25). Jesus explica que “o campo é o mundo, e a boa semente são os filhos do reino. O joio são os filhos do maligno, e o inimigo que o semeou é o diabo” (v.38).

O destino do joio já está traçado: “Assim como o joio é colhido e queimado no fogo, assim será na consumação deste mundo. Mandará o Filho do homem os seus anjos, e eles colherão do seu reino tudo o que causa pecado, e todos os que cometem iniquidade. E lançá-los-ão na fornalha de fogo, onde haverá pranto e ranger de dentes” (vv.40-42). Repare nisso: Deus eliminará de Seu reino “tudo o que causa pecado” e “todos os que cometem iniquidade”. Creio que “tudo o que causa pecado” seja uma alusão aos demônios, aos Nefilins, cujo objetivo é instigar os homens a pecar. Entretanto, os homens não ficarão impunes. Todos os que cometem iniquidade serão exterminados para sempre.

Na mesma passagem em que Isaías relata a queda do Querubim rebelde, lemos a sentença lavrada por Deus contra a descendência dos Nefilins: “A descendência dos malignos não será nomeada para sempre. Preparai a matança para os filhos por causa dos pais, para que não se levantem e possuam a terra, e encham o mundo de cidades” (Is.14:20b-21). Aquela prole amaldiçoada tinha que ser exterminada, para que não trouxesse males ainda maiores à humanidade.

Ao enviar seus doze espias à terra de Canaã, Moisés ordenou que eles sondassem a população que havia naquela região. Ao retornarem de sua missão, os espias relataram que viram gigantes na terra (o termo usado em hebraico é Nefilim).

Quando, finalmente, Israel estava prestes a entrar em Canaã, depois de perambular pelo deserto por cerca de 40 anos, Josué foi instruído por Deus a destruir completamente os morados daquelas cidades, não poupando nem mesmo mulheres e crianças. Satanás semeou ali o seu joio, para impedir que a semente de Abraão, de onde viria o Messias, se estendesse por toda aquela região.

O livro de Números relata a presença dos Nefilins em Canaã, muito depois do Dilúvio. Depois de vagar por 40 anos no deserto, os filhos de Israel deram uma parada em Cades, que era uma espécie de Oásis no norte do Sinai. Foi dali que Moisés enviou os doze espiais à Terra Prometida. O texto diz:

“Quando Moisés os enviou para explorar a terra de Canaã, disse-lhes: Subi ao Neguebe, e escalai as montanhas. Vede como é a terra, e o povo que nela habita, se é forte ou fraco, se são poucos ou muitos. Como é a terra em que habita? É boa ou má? Como são as cidades em que vivem? São abertas ou fortificadas? Como é o solo? É fértil ou estéril? Tem matas ou não? Esforçai-vos, e trazei do produto da terra…” Números 13:17-20

Depois de 40 dias, os espias retornaram com o seguinte relatório:

“Fomos à terra a que nos enviaste. Ela verdadeiramente mana leite e mel! Este é o seu fruto. Mas o povo que habita nessa terra é poderoso, e as cidades fortificadas e muito grandes. Também vimos ali os filhos de Enaque (gigantes).” Números 13:27-28

Quando o povo já demonstrava desânimo com o relatório dos espiais, Calebe tomou a palavra e disse: “Subamos animosamente, e possuamo-la em herança, pois certamente prevaleceremos contra ela. Porém os homens que com ele subiram disseram: Não poderemos atacar aquele povo; é mais forte do que nós. E diante dos filhos de Israel infamaram a terra que tinham explorado, dizendo: A terra, pelo meio do qual passamos a espiar, é terra que devora os seus moradores. Todo o povo que vimos nela são homens de grande estatura. Também vimos ali gigantes (pois os descendentes de Enaque são de raça gigante), e éramos aos nossos próprios olhos como gafanhotos, e assim também lhes parecíamos” (Nm.13:30-33).

Por causa do receio dos filhos de Israel em enfrentar os Nefilins, toda aquela geração foi reprovada por Deus, ficando prostrado no deserto, ao longo de quarenta anos de peregrinação. Daquela geração que saíra do Egito, somente dois, Josué e Calebe, adentraram a terra prometida.

Quarenta e cinco anos depois deste episódio, quando Calebe recebeu de Josué a sua parte da herança, teve que enfrentar os Enaquins (Nefilins), e expulsá-los do monte Hebrom (Js.14:12-15).

A ordem de Deus não poderia ser atenuada. Sua instrução foi clara:

“Ouve, ó Israel! Hoje passarás o Jordão para entrares a possuir nações maiores e mais fortes do que tu, cidades grandes e muradas até o céu. O povo é grande e alto, filhos dos Enaquins, que tu conheces e de quem já ouvistes dizer: Quem poderá enfrentar os filhos de Enaque? Sabe, porém, hoje, que é o Senhor teu Deus que passa adiante de ti, como um fogo consumidor. Ele os destruirá e os derrubará diante de ti, e tu cedo os expulsarás e os desfarás, como o Senhor te prometeu. Quando o Senhor teu Deus os lançar fora de diante de ti, não digas em teu coração: Por causa da minha justiça é que o Senhor me trouxe a esta terra para a possuir. Antes, é pela impiedade destas nações que o Senhor as expulsa de diante de ti (…) e para confirmar a palavra que o Senhor teu Deus jurou a teus pais, Abraão, Isaque e Jacó.” Deuteronômio 9:1-4,5b

Em Deuteronômio, os gigantes Enaquins (descendentes dos Nefilins) também são conhecidos como Rafains (Deut.2:11). Entre os mais conhecidos Rafains está o rei Ogue, de Basã. De acordo com Deuteronômio, a enorme cama de ferro[11] de Ogue ainda podia ser vista em Rabá (Deut.3:11).

Segundo a Bíblia, tanto os Refains quanto os Enaquins foram exterminados por Moisés (Js.12:4-6), Josué (Js.11:21-22) e Calebe (Js.15:14; Jz.1:20), ainda que restassem alguns desgarrados, que acabaram mortos por Davi e seus homens (2 Sm.21:18-22; 1 Cro.20:4-8).

Embora os gigantes tenham sido erradicados da Terra, fomos comissionados por Cristo a expulsar os demônios, na autoridade do Nome de Jesus. Portanto, a luta continua. Mas a vitória é garantida “pelo sangue do Cordeiro” e pela palavra de nosso testemunho (Ap.12:11).

Paulo fala que nossa luta não é contra carne nem o sangue, mas contra os principados, as potestades, os poderes deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais da maldade nas regiões celestes. De Gênesis 6 até os dias de Davi, o povo escolhido por Deus teve que lutar contra inimigos de carne e sangue. Aqueles mesmos inimigos estão em guerra contra o povo de Deus hoje. A diferença é que já não são carne e sangue, mas seres espirituais. Quando Paulo fala de “poderes deste mundo tenebroso”, está se referindo aos demônios, que trabalham por trás das estruturas injustas que buscam cativar os seres humanos. Já “os principados, as potestades, e as forças espirituais da maldade nas regiões celestes” dizem respeito àqueles anjos que se rebelaram contra Deus, e hoje atuam sob a orientação do “príncipe das potestades aéreas”.

_____________________

[1] Mártir, Justino, “The Second Apology”, Writings of Saint Justin Martyr, traduzido por Thomas B. Falls (N.York: New York Christian Heritage, 1948), p.124.
[2] Atenágoras, “Legatio”, ed. e trad. William R. Schoedel, Oxford Early Christian Texts: Legatio and De Resurreictione(Oxford: Clarendon Press, 1972(, p.61.
[3] Tertuliano, “Apology”, Apologetical Works, Fathers of the Church, 69 vols. Até esta data (Washington, D.C.: Catholic University os America PRESS, 1947-), 10 (1950): 69.
[4] Tertuliano, “The Apparel of Women”, Disciplinary, Moral, anda Ascetical Works, Fathers of the Church, 40:118-20.
[5] Clemente, “The Instrutor”, Ante-Nicene Fathers, 2:274.
[6] The Clementine Homilies, Ante-Nicene Fathers, 8:272-73
[7] Ver Apocalipse 21:17; Gálatas 4:14; Atos 1:10; Juízes 13: 3-21; Daniel 9; Gênesis 19:10-15, Hebreus 13
[8] Há traduções que trazem “filhos de Israel” em vez de “filhos de Deus” (bene ha-Elohim). Está comprovado através da descoberta de um texto fragmentário entre os Manuscritos do Mar Morto que continha o Deuteronômio 32:8. composto em escrita do final do período herodiano (fim do século I a.C. ao início do século 1 d.C.), que as últimas palavras do versículo são claramente bene ha-Elohim (filhos de Deus = anjos). Esse fragmento é hoje o mais antigo texto hebraico do Deuteronômio 32:8 conhecido. Essa redação foi preservada na Septuaginta Grega, que traduziu como “aggelon theou” (anjos de Deus).
[9] Convém salientar que esses anjos também comeram de um banquete preparado por Ló. Ver Gn.19:3
[10] A cama de Ogue tinha cerca de 4m de cumprimento e 2m de largura.
[11] Waisbard, Simone, Tiahuanaco, Ed. Hemus[12] Agostinho, Santo, De Civitate Dei, X.

Fonte: http://www.hermesfernandes.com/2014/02/respondendo-as-objecoes-sobre.html

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *